Geração Raiz

Numa rua residencial de um subúrbio qualquer, um motoboy entregador de gás, pára a moto no meio do quarteirão e, com a entrega esperando, sobe numa goiabeira que cresce numa jardim da calçada. No chão, algumas goiabas vermelhas espatifadas e cheirando forte. Sem cerimônias, ali mesmo ele estraçalha as frutas que pegou, do mesmo  jeito que fazia quando criança.

Numa mangueira encorpada e majestosa, já senhora do seu território, meninos inventam mil estratégias para alcançar as mangas maduras, grandes e amareladas, que lá do alto parecem gritar que querem ser comidas, provocando quem nelas se interessam.

E lá vão as bambuzadas, as pedradas voando, barbante amarrado em galho, discussão acalorada…. Cada um com uma ideia melhor que a do outro. Um sobe na árvore, outro puxa o galho, alguém acerta uma paulada certeira. Todos investidos na nobre missão: pegar uma manga. E comê-la ali mesmo, do jeito que der.

Num quintal tradicional e espaçoso, cercado de árvores frutíferas, um cajueiro vira o centro das atenções. A disputa é séria: quem fica com aquele caju maior e  mais bonito, mais vermelho, mais promissor? Com cada um gritando e provocando um ao outro, eles marcam o alvo no galho alto e vão subindo, equilibrando-se pelos galhos mais antigos, inventando caminhos até chegar ao fruto  chamativo e cobiçado. Tudo vale a pena por um caju do pé: cheio de caldo, com aquele cheiro característico, quase insolente, e cores que fariam inveja a uma arara.

Cada época do ano entrega sua fruta. Quem cresceu entre quintais, árvores e beira de rio aprende a respeitar o tempo das coisas e a aproveitar o que cada estação oferece.

As jabuticabas, por exemplo, já viraram época de festa. Em cidades como Sabará, em Minas, anualmente há uma festa dedicada a elas, com doces, licores, geleias, shows, e até aluguel de árvore pra quem quiser catar e comer ali mesmo, no pé. E no chão, um tapete de jabuticabas caídas, de tanta fartura que a natureza distribui sem pedir licença.

Agora me diga: o que tudo isso tem a ver com o que hoje se chama de “geração mimimi”?

Talvez tudo, considerando que para eles, nada dessas bobagens atende aos seus interesses e vontades.

Porque o simples ato de apanhar uma fruta no pé, e comê-la ali, na hora , sem frescura nenhuma, pavimenta uma mentalidade poderosa para a satisfação, para a beleza e a aceitação da singularidade do ato. E evidenciam sentimentos que andam em falta hoje em dia: resiliência, aceitação, adaptação.

A vida não vem cortada em quadrados perfeitos.

Comer uma fruta direto da árvore nos reconecta com a realidade de um mundo mais dinâmico, generoso a sua maneira e, ao mesmo tempo, imprevisível. Ensina, sem discurso, que as coisas não acontecem de um único jeito. E que, mesmo com improvisos e dificuldades, há abundância neste planeta.

Mas hoje tudo virou “não pode”, “não se deve”…

“Ainh, mas essa fruta lambuza e suja a gente todo.”

 E daí? Qual o problema disso? Usa água e aproveita e lava suas bobeiras, seu chatismo, sua impaciência com tudo, e renova a compreensão com relação a “estar limpo”.Ou simplesmente limpa a mão na calça e está tudo resolvido. Ponto.  Bora pro próximo problema…  Isso não é uma crise existencial, é só uma fruta.

Mesmo com uma intervenção do acaso, ainda temos acesso aos temperos de abundância, gratidão e felicidade. Quem não se delicia em saborear uma fruta que nos foi ofertada generosa e sabiamente pela natureza?

“Aiiii, mas não tenho faca.”

Temos dentes. Já é um começo. 

E, se quiser evoluir, sempre existe o improviso: uma pedra, um galho, ou aquele objeto místico e perigosíssimo de iniciação masculina: o canivete!

Houve um tempo em que ganhar um canivete era rito de passagem. Um menino quando ganhava um canivete,  praticamente virava adulto. Se tornava esponsável pela própria fome, pela sua defesa, pelos próprios riscos. Não havia mais espaço pra frescuras do tipo “esse suco tá azedo”, “essa fruta não tá no ponto”, “não gosto disso, não gosto daquilo”.

Hoje, o desconforto virou argumento.

E quando alguém não consegue enxergar uma fruta como dádiva da natureza, do acaso, do que se quiser chamar, fica fácil imaginar como essa pessoa vai lidar com as centenas de frustrações inevitáveis da vida.

Crianças precisam de árvore, terra, pedra, mato. Precisam se sujar, se arranhar, se virar. É assim que se constrói alguém que se sinta que  pertence a algum lugar. Não só ao planeta, mas à própria existência.

De verdade, não sou contra a exploração espacial. Mas toda vez que vejo imagens de Marte, com aquele silêncio seco, avermelhado e aparentemente sem árvores, cada vez mais agradeço pelo nosso planeta ser tão maravilhoso…

A gente já mora no lugar certo. Mesmo alguns tentando nos vender que lá fora tem coisa melhor.

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